Fala galera:

“Idiota” tem origem nos vocábulos gregos ἰδιώτης, idiōtēs (pessoa que carece de capacidade profissional; um cidadão privado e egoísta, que não se preocupa com os assuntos públicos) e de ἴδιος, idios (privado(a); si mesmo(a)). Isto posto, pergunto-me: “Qual é problema de morrer como um idiota?”

De fato, esta pergunta é pertinente. Há pessoas que carecem completamente de uma capacidade profissional porque nasceram ou adquiriram alguma patologia que as impede irremediavelmente de exercer qualquer profissão. Morrer assim é morrer idiota num certo sentido, mas não no sentido primigênio, como tentarei mostrar. No entanto, por mais doloroso que seja para a pessoa em questão (caso ela se dê conta do que está deixando de fazer por conta de fatores externos), quem morre numa condição de invalidez psicossomática pode, contudo, morrer de forma admirável (vem-me à cabeça, agora, a Terry Schiavo). Com efeito, a meu ver, não haveria problema algum morrer como um “idiota” no referido sentido, uma vez que a pessoa pode se realizar plenamente como ser humano ao aceitar as suas limitações e usar as poucas capacidade de que dispõe para realizar feitos incríveis, inclusive, em alguns casos, profissionais – por mais paradoxal que isto pareça (vejam-se os exemplos de Leide Moreira – www.leidemoreira.com.br – e de Luis de Moya – www.luisdemoya.org).

No entanto, “idiota” no sentido de cidadão “privado e egoísta, que não se preocupa com os assuntos públicos”, parece-me sim o significado originário e preciso do termo, que, convenhamos, é pejorativo (nas situações que mencionei antes, o emprego de tal qualificativo parece-me bastante equivocado, uma vez que nelas o que objetivamente se encontra não é, absolutamente, egoísmo).

O idiota verdadeiro é aquele que, digamos, dá vazão ao seu egoísmo, tornando-se cada vez mais uma pessoa ensimesmada, travada em suas idéias, esquemas mentais e preconcepções sobre Deus, o homem e o mundo. Vai perdendo a capacidade de ser convencido, de dialogar, de se arrepender, de perdoar etc. À medida que isto vai se cristalizando, a tendência dessa pessoa é desprezar os pareceres alheios, por não se identificarem com os seus ou, se se assemelharem, por não serem tão bem formulados como os dela.

Agora falo do problema de ser assim. O cara que é ele mesmo, isto é, um idiota, e insiste em sê-lo cada vez mais, vai desenvolvendo uma espécie de autismo moral. Acho que todo o mundo é idiota em algum grau, e que a tendência espontânea é a de sermos cronicamente idiotas. Em nível crônico, a idiotice empurra o indivíduo à comissão de genocídios, já que a “gentalha” estúpida, a seu ver, não deve existir. No século XVIII, Fichte – mais ou menos por este caminho – concluiu que havia que dar morte a tudo o que fosse não-eu. No século XX, alguns camaradas jodidos, tipo Adolf, Josef, Pot e Castro tiveram em mãos os mecanismos para proceder à eliminação massiva do seus não-eu. É, o idiota, por mais ateu que seja, acredita na existência do inferno: são os outros.

E aí, será que isso já é suficiente para considerarmos a idiotice um problema?

Bom, não continuarei a escrever tim-tim-por-tim-tim tudo o que eu pretendia, porque estou com sono e tenho que acordar cedo amanhã. Só lançarei aqui umas idéias de uns caras que já pensaram bastante neste papo todo. Ficam para a reflexão geral e para um eventual debate posterior, via net ou ao vivo e a cores:

1. “Eu sou eu e a minha circunstância” (José Ortega y Gasset);

2. “Life is what happens to you when you’re busy making other plans” (John Lennon);

3. “[A pessoa] [...] ainda que [...] seja irredutível, significa coexistência. [...] Coexistem as pessoas. Consequentemente, o ser humano – a coeistência – não significa mónon, único. Ou, dito de outra maneira, não tem sentido uma pessoa única. Não é possível uma pessoa única. Por um lado, as pessoas coexistem com aquilo que não é coexistência, isto é, com o ser fundamental. Mas também coexistem entre si: há co-existência pessoal. A irredutibilidade da pessoa não é isolante; não é separação” (Leonardo Polo).

Abraços

Fred

PS: ajudem-me a não morrer como um idiota!