Se vivesse hoje, teria 120 anos o grande poeta.
Aproveitando o ensejo deste aniversário, gostaria de delinear os objetivos deste nosso grupo à luz deste nobre purtuguechs. Vou expor alguns conceitos que estão no prefácio do “Mensagem”:
“(…) compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes”.
Erudição: uma soma. O erudito é o cara que sabe milhões de coisas. Ele não precisa consultar a Barsa, consulta a sua memória. E.g., o indivíduo sabe que em 1920 os ingleses dispararam contra os irlandeses num jogo de futebol gaélico num domingo em Dublin. O estádio tinha em torno de 5 mil espectadores. Morreram 12 pessoas, entre eles um garoto de 10 e outro de 11 anos. Em 1972, foram mortos 13 civis desarmados que protestavam contra o domínio do Reino Unido. Os dois episódios são conhecidos como “Bloody Sunday”.
Cultura: uma síntese. Este conseguiu juntar coisas diferentes num todo harmônico. Este é um dos objetivos do nosso grupo. Ganharmos uma visão de conjunto de Deus, do homem e do mundo. E.g., os ingleses não costumam tratar os irlandeses com muita humanidade, quando há questões políticas em jogo.
Compreensão: uma vida. Aristóteles fala numa parte do Ética a Nicômaco que a leitura não será útil aos menores de 30 anos (!). Isto significa que a experiência da vida real tem muito a ver com este passo. E.g., posso juntar estes fatos à política da minha universidade, onde vejo um puxar o tapete do outro. Vejo que o ser humano, pela sede de poder, trata as pessoas sem humanidade. Posso lembrar que já defendi “o meu” (tempo, dinheiro, cargo, etc…) por vezes sendo injusto com os outros.
Esta é a minha compreensão do Pessoa.
Gostaria que vocês comentassem e me corrigissem, pois sei muito pouco de poesia e não sei o que ele entendia por “símbolos”.
Abração,
Gitano
18 Junho 2008 at 17:13
Gitano:
Valeu pela recordação do natalício do grande Pessoa e mais ainda pela transcrição desse trecho tão bom!
Coincido plenamente com a sua interpretação do que o luso diz sobre “erudição” e “cultura”. Quanto a como você interpreta o que ele fala sobre “compreensão”, tento aqui fazer um exercício filosófico, que pretendo que desemboque num incentivo a mais para não morrermos idiotas.
Em primeiro lugar, penso que o que ele chama “símbolos” quer dizer “significados”. A palavra “significado” tem a ver com “signo”, que, por sua vez, tem a ver com “sinal”. E o “símbolo” é uma coisa que “simboliza” ou “sinaliza” algo. Em outras palavras: “símbolo” é um troço que sinaliza outro troço. Tipo: uma placa de trânsito que diz “Retorno a 5 km” é um símbolo que sinaliza o pedaço de estrada que sai de uma mão da via principal e a liga à mão oposta. A “placa” não é “o trecho da estrada”, mas o simboliza.
Cotejando este exemplo com o processo de conhecimento humano, temos: a idéia que tenho de uma coisa, de uma pessoa ou de um acontecimento é a “placa”, enquanto que a coisa, a pessoa ou o acontecimento é “o trecho de estrada”. A idéia que está na minha cabeça pode ser chamada de “símbolo-significado”, e a coisa, a pessoa ou o acontecimento pode ser chamado de “simbolizado-significante”. O primeiro é a “embalagem”; o segundo é o “conteúdo”.
Se a lambança acima estiver correta, então eu diria que a idéia que você, Gitano, tem da política da sua universidade (um acontecimento que envolve pessoas e coisas) é um “símbolo” que você construiu – mais ou menos acertado, não sei – da “política da sua universidade” em si, que existe e é de uma determinada forma, independentemente da idéia que você, eu ou qualquer outra pessoa possa ter dela. Certamente, você chegou à conclusão de que essa política é, basicamente, “uma puxação de tapetes” comparando-a, pelo menos, com outros acontecimentos de que você tomou ciência ao longo da vida e que também os considerou “uma puxação de tapetes”.
Então, pergunto-me: será que a política da universidade do Gitano é mesmo “uma puxação de tapetes”? Acredito que sim, porque conheço você e confio nos seus pareceres. No entanto, eu não sairia afirmando por aí que aquilo lá é um “antro de egoístas impiedosos” até que houvesse motivo para tanto e sem que eu tivesse consultado o parecer de outras pessoas que, como você, andam por lá. Eu precisaria me certificar que o símbolo que elas construíram sobre “a política da sua universidade” também é “uma puxação de tapetes” ou algo aproximado.
Por isso, é necessário que eu compare vários símbolos acerca da política da sua universidade para começar a construir o meu. Isto, por sua vez, é um símbolo – porque a significa – da não-idiotice, isto é, da mania de palpitar sobre tudo só com base no que eu penso.
Fred
PS: se o que Aristóteles disse sobre a leitura estiver correto, ela só será de utilidade a mim – que estou a caminho dos 32 – e ao Hugo – que deve estar beirando os 60. Portanto, deixem de dar pitaco nas próximas reuniões, eh, eh.
18 Junho 2008 at 18:41
Gitano:
Valeu pela recordação do natalício do grande Pessoa e mais ainda pela transcrição desse trecho tão bom!
Coincido plenamente com a sua interpretação do que o luso diz sobre “erudição” e “cultura”. Quanto a como você interpreta o que ele fala sobre “compreensão”, tento aqui fazer um exercício filosófico, que pretendo que desemboque num incentivo a mais para não morrermos idiotas.
Em primeiro lugar, penso que o que ele chama “símbolos” quer dizer “significados”. A palavra “significado” tem a ver com “signo”, que, por sua vez, tem a ver com “sinal”. E o “símbolo” é uma coisa que “simboliza” ou “sinaliza” algo. Em outras palavras: “símbolo” é um troço que sinaliza outro troço. Tipo: uma placa de trânsito que diz “Retorno a 5 km” é um símbolo que sinaliza o pedaço de estrada que sai de uma mão da via principal e a liga à mão oposta. A “placa” não é “o trecho da estrada”, mas o simboliza.
Cotejando este exemplo com o processo de conhecimento humano, temos: a idéia que tenho de uma coisa, de uma pessoa ou de um acontecimento é a “placa”, enquanto que a coisa, a pessoa ou o acontecimento é “o trecho de estrada”. A idéia que está na minha cabeça pode ser chamada de “símbolo-significado”, e a coisa, a pessoa ou o acontecimento pode ser chamado de “simbolizado-significante”. O primeiro é a “embalagem”; o segundo é o “conteúdo”.
Se a lambança acima estiver correta, então eu diria que a idéia que você, Gitano, tem da política da sua universidade (um acontecimento que envolve pessoas e coisas) é um “símbolo” que você construiu – mais ou menos acertado, não sei – da “política da sua universidade” em si, que existe e é de uma determinada forma, independentemente da idéia que você, eu ou qualquer outra pessoa possa ter dela. Certamente, você chegou à conclusão de que essa política é, basicamente, “uma puxação de tapetes” comparando-a, pelo menos, com outros acontecimentos de que você tomou ciência ao longo da vida e que também os considerou “uma puxação de tapetes”.
Então, pergunto-me: será que a política da universidade do Gitano é mesmo “uma puxação de tapetes”? Acredito que sim, porque conheço você e confio nos seus pareceres. No entanto, eu não sairia afirmando por aí que aquilo lá é um “antro de egoístas impiedosos” até que houvesse motivo para tanto e sem que eu tivesse consultado o parecer de outras pessoas que, como você, andam por lá. Eu precisaria me certificar que o símbolo que elas construíram sobre “a política da sua universidade” também é “uma puxação de tapetes” ou algo aproximado.
Por isso, é necessário que eu compare vários símbolos acerca da política da sua universidade para começar a construir o meu. Isto, por sua vez, é um símbolo – porque a significa – da não-idiotice, isto é, da atitude contrária à mania de palpitar sobre tudo só com base no que eu penso.
Fred
PS: se o que Aristóteles disse sobre a leitura estiver correto, ela só será de utilidade a mim – que estou a caminho dos 32 – e ao Hugo – que deve estar beirando os 60. Portanto, deixem de dar pitaco nas próximas reuniões, eh, eh.
18 Junho 2008 at 20:35
Caríssimo Fred,
Na verdade eu não quis dar a entender que a política na “minha” faculdade é um “puxar de tapetes”. Coloquei o “minha” como exemplo que cada um pode ter.
O que eu tinha em mente é que a reação egoísta – que seria, por assim dizer, uma “essência” – pode ser iluminada de várias formas. Você a nota de forma clara no relacionamento de países, depois você o vê no seu dia-a-dia, então também nos seus atos.
Comparando diversos particulares de similar “essência”, ter-se-ia o que Pessoa designou compreensão. Seria um entendimento profundo de uma realidade.
Você acha que assim coincidiria com o que você disse ou há alguma diferença que vale a pena elucidar?
Abç,
Gitano
19 Junho 2008 at 9:53
Caro Gitano:
Coincide plenamente. Na verdade, o que eu fiz – o tal do “exercício filosófico” – acho que foi só encher lingüiça, vá saber…
Fred
20 Junho 2008 at 22:58
“Isto, por sua vez, é um símbolo – porque a significa – da não-idiotice, isto é, da mania de palpitar sobre tudo só com base no que eu penso.”
Caramba, ignorando todo o resto do post e dos comentários, isso me fez pensar um pouco e – num arroubo de soberba – ver como muita gente ainda é idiota. Ainda…
Mas não vou me estender mais, porque o Fredão me desanimou!: “Portanto, deixem de dar pitaco nas próximas reuniões, eh, eh.” Hahaha