Depois de duas semanas sumido de nossas reuniões e dando sequencia à linha do post do gitano, trago aqui alguns inflamados versos do grande Fernando Pessoa - sobre a morte - como homenagem inicial ao blog. Espero que gostem.
“O que é a vida e o que é a morte
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as cousas que há
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer cousa aqui
Terá de mim o próprio estigma
Da sombra em que eu vivi.”
Eu pensei nesse poemas, li muitas vezes, e como pensava numa coisa suficientmente não idiota pra escrever aqui, acabei levando mais tempo do que devia. Primeiro eu precisei saber o que é estigma. Descobri que estigmas são um dos cinco sinais que aparecem no corpo (geralmente de santos) nos mesmos lugares que as chagas de Jesus, nos pés, punhos e tórax. Mas lembrei-me que estigma também é visto como uma visão rotulada, fortemente ligada a um preconceito, uma idéia forte e pronta.
Isso me foi suficiente para concluir o que eu penso do poema. Primeiramente penso que Pessoa utilizou estigma como marca, como sinal visível, isso é imprescindível para compreender o poema.
Então fica assim: O poeta não se preocupa com o “enigma da morte”, porque o que move o mundo é ”a vida e sorte”. Eu digo: na verdade ele se preocupa sim, e muito! Ele faz questão de dizer que o que move o mundo é “a vida e a sorte”, ou seja, nada, ou, o inalcansável, o imperscrutável, o mundo é movido por ele mesmo. Quer dizer que o poeta, seguindo minha idéia, desistiu de descobrir o enigma, e busca agora um significado para a própria existência. Aqui entra o “estigma”, agora não importa o enigma, o que importa é o estigma do que vivi, a marca da minha vida, o que modernamente poderia se falar “a força do meu exemplo”. Mas ao mesmo tempo o poeta se rende: não é o estigma da vida, mas sim “da sombra em que vivi”, ou seja, apesar do sentido pessoal de fazer valer a vida, a sua vida, por melhor que seja, por mais sulcos que deixe, estará envolta nessa “sombra”, na triste “sombra” de não saber a resposta ao enigma. Ou, na minha visão, de não compartilhar a resposta ao enigma.
Portanto, acho que é ao mesmo tempo um poema de triunfo e de resignação.
Mas eu fico mesmo é com Philippe Ariès, que dispensa explicação:
“Aquilo que verdadeiramente é mórbido não é falar da morte, mas nada dizer acerca dela, como hoje sucede. Ninguém está tão neurótico como aquele que considera ser neurótico decidir-se a pensar sobre o seu próprio fim.”
Um abraço a todos!
Eu extraí as referências desse post dum texto que eu tenho do escritor Alcy Gigliotty, nesse link não está inteiro mas vale muito a pena conferir: http://darkemotions.blogs.sapo.pt/arquivo/642493.html
24 Junho 2008 at 15:11
Grande dell’Avanzi (é assim que se escreve?),
Proponho uma interpretação complementar à sua. Um pouco diferente, mas quiçá interessante.
“Aqui onde a vida e a sorte
Movem as cousas que há”
Pensei que a “vida” poderia ser a nossa contribuição para o mundo, enquanto a “sorte” a Providência. Então o mundo, feito por Deus, é devolvido a Ele pelo homem com um toque, um cheiro, uma marca, humana.
“Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer cousa aqui
Terá de mim o próprio estigma
Da sombra em que eu vivi.”
Aqui fiquei com uma interrogação na alma…
Será que ele fala que o “estigma” que o “enigma” ganhará é a contribuição pessoal(no caso deste poema, Fernando Pessoal)?
“estigma da sombra” – estaria o nosso caríssimo Pessoa falando de uma má contribuição feita ao mundo? Uma ferida que o mundo ganhou (“estigma”) do mal da sua alma (“sombra em que eu vivi”)?
O q vcs acham?
Cigano