Aproveitando a iniciativa cigana (com seus comentários mais que pertinentes devo acrescenar), devo dizer que encontrei de certo modo uma pretensão de não morrer idiota no nosso multifacetário homenageado.Quero dizer que, se entendido o idiota como o indivíduo ensimesmado de que nos falava o Fred, Pessoa não o é, pelo fato de partir de uma filosofia que é aberta a realidade, e não se fecha no  idealismo de que toda a realidade deve estar  de acordo com nosso intelecto.Prova disso é a capacidade de se admirar, de se surpreender com o mundo, desde as coisas mais triviais, às mais profundas.Aliás, como ele mesmo o diz, em todas as coisas a um significado profundo, que o homem comum se acostuma e se esquece.Recomendo também, nesse sentido, a leitura do capítulo A Moral no País das Fadas, contida na insuperável Ortodoxia, de Chesterton.Aí vai um trecho de um artigo de Pessoa (com uma boa dose de platonismo):

“Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas.Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.”…

“Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida – acredito-o – de modo diferente de outros homens. Há para mim – havia – um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um significado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo. É que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condições, mas de nada mais se recordando.”

Abraços, e lembrem-se do alerta de Hesíodo:

“Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas;
Bom, o que escuta os conselhos dos homens judiciosos.
Mas o que por si nao pensa, nem acolhe a sabedoria alheia,
Esse é, em verdade, um homem inutil.”