Caros,

Estávamos em aula na FFLCH hoje, e saiu a pergunta: Qual a finalidade da ciência? Descobrir os “porquês” ou descobrir os “comos”? Da discussão não saiu muita coisa, e o assunto morreu por aí mesmo. Mas sucitou em mim este post.

Parece-me que a função da ciência, principalmente a moderna, surgida formalmente em Descartes, não se propõe, ela mesma, em esclarecer tanto as causas das coisas, mas sim entender o funcionamento delas. Pego um exemplo da biologia: a fisiologia quer mais entender o mecanismo de regulação do corpo, como ele secreta seus hormônios, como ele reage numa situação de estresse, ao invés de querer entender o motivo da existência de tais mecanismos. E penso que isso pode ser extrapolado para as outras áreas do conhecimento científico.

Mas afinal, quem se propõe a descobrir as causas das coisas? Talvez a filosofia, ou até a metafísica, quem sabe a teologia em certo ponto? Não sei, mas parece que esses campos do conhecimento são mais adequados a esse tipo de questionamento.

Infelizmente, esses campos vêm sendo desprezados pelo público em geral. Não se quer muito saber porque estamos aqui, ou para que serve este mundo. Às vezes, [momento mea culpa] até os que querem saber vivem como se não buscassem tais respostas, ou como que não quisessem ouví-la. Daí a ciência entra com o pé-no-peito pontificando coisas que não sabe ou que não cabe a ela saber. E vemos, então, uma crise de materialismo e um racionalismo exacerbado, que nos iguala a animais, afinal, que é o homem, senão um macaco, ou descendente dele, que sabe falar? É como uma exclusão de parte da Realidade. Ao transformar a Realidade em “realidade” excluem da vida todo o resto não abarcado por esta última, entrando, assim, num “tanto-faz” destruidor. E daí tiram as maiores aberrações éticas, como a manipulação de embriões, sustentados pela conveniência.

Não sei, mas penso que a filosofia tem um papel importantíssimo na desconstrução desse paradigma do cietificismo, em que tudo pode ser explicado pela ciência, e que se não for, não passa de bobagem, mito, crenças…

Enfim, termino com a citação de grandes filósofos da modernidade: “Quem poderá nos ajudar?”

Decidi compartilhar com os amigos leitores deste blog uma idéia que me passou pela cabeça.

Vi no orkut uma comunidade, com 4881 membros, de nome “Good writing is sexy”, a qual, pelo que pude entender, preza a boa escrita como uma forma de beleza.

A boa escrita é realmente bela e atraente, mas a idéia de venerá-la, não posso mentir, me assusta um pouco.

Posso estar enganado, mas o processo criativo de um adepto desta idéia é o seguinte: “Preciso escrever algo belo, mas o que? Política, economia, arte, cotidiano? Reforçarei o sarcasmo, ou serei dramático? (…)

O porque do que se escreve fica relegado a um segundo plano. Ou não?!

Alguem poderia falar do idealismo de Platão, da Beleza, da Sabedoria, mas fala sério, não tem nada a ver, um texto, pelo simples fato de ser texto, não é Sabedoria nem Beleza, traçar parâmetros nesse sentido fica bem difícil.

Tomemos por exemplo o meu post de hoje. Dois foram os motivos para escrevê-lo: o primeiro é agitar o blog, manter viva a discussão da ética, e esquentar os encontros de segunda-feira à noite. O segundo, simultâneo ao primeiro, foi falar sobre o que eu chamaria de resquicios de cultismo nos tempos modernos, através do exemplo do movimento “Good writing is sexy”.

Entretanto…

É bem provável que eu não escrevesse nada se não tivesse o prazer que tenho ao escrever, pois sim, dá-me um prazer escrever aqui. Por motivos vários: esta idéia será comentada na segunda, é possível que alguém venha e me fale “não tinha pensado nisso!” (assim como eu não penso em um monte de outras idiotices), eu exercito minha capacidade de persuasão e raciocínio, faço uma ginástica mental…

Será então que…

Quis escrever aqui pelo simples – ou não – prazer de haver escrito algo belo? Pergunto-me a mim mesmo e já não sei responder. Embora minha mais íntima convicção diga-me que não o fiz, prefiro abster-me de juízos. 

Concluindo…

Sob esse prisma, o prazer advindo da escrita é consequência, embora simultâneo à causa (que na verdade são muitas, muitas mesmo) de se escrever. Mas, se se torna causa, um texto, ao invés de conter uma narrativa, se impregnará de um pigmento espelhado, no qual se refletirá a pompa do escritor, numa atitude equiparada a de Narciso, no esplendor de sua beleza.

O texto já está tão confuso que perdi a linha de raciocínio. Já não sei porque escrevi. Embora saiba algumas das causas. Estou tão confuso que o melhor a fazer é parar por aqui.

 … será discutido nesta 2 feira às 19h45.

 Acesse e leia!

 http://classics.mit.edu/Aristotle/nicomachaen.2.ii.html 

http://www.filosofia.org/cla/ari/azc01.htm 

Aproveitando a iniciativa cigana (com seus comentários mais que pertinentes devo acrescenar), devo dizer que encontrei de certo modo uma pretensão de não morrer idiota no nosso multifacetário homenageado.Quero dizer que, se entendido o idiota como o indivíduo ensimesmado de que nos falava o Fred, Pessoa não o é, pelo fato de partir de uma filosofia que é aberta a realidade, e não se fecha no  idealismo de que toda a realidade deve estar  de acordo com nosso intelecto.Prova disso é a capacidade de se admirar, de se surpreender com o mundo, desde as coisas mais triviais, às mais profundas.Aliás, como ele mesmo o diz, em todas as coisas a um significado profundo, que o homem comum se acostuma e se esquece.Recomendo também, nesse sentido, a leitura do capítulo A Moral no País das Fadas, contida na insuperável Ortodoxia, de Chesterton.Aí vai um trecho de um artigo de Pessoa (com uma boa dose de platonismo):

“Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas.Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.”…

“Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida – acredito-o – de modo diferente de outros homens. Há para mim – havia – um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um significado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo. É que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condições, mas de nada mais se recordando.”

Abraços, e lembrem-se do alerta de Hesíodo:

“Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas;
Bom, o que escuta os conselhos dos homens judiciosos.
Mas o que por si nao pensa, nem acolhe a sabedoria alheia,
Esse é, em verdade, um homem inutil.”

 

 Transcrevo o que disse o Papa em Verdade e Tolerância para fomentar a discussão:

 Dito de outra forma: liberdade significaria ter a vontade própria como a única norma de nossas ações. Que nossa vontade pudesse desejar tudo e ter a possibilidade de realizar tudo o que quisesse. Nesse ponto certamente se levantam novas questões: até que ponto nossa vontade é realmente livre? Até que ponto é razoável? E será uma vontade não razoável uma vontade realmente livre? É realmente liberdade uma liberdade irracional? É realmente um bem? A definição de liberdade, entendida como o poder-querer e o poder-fazer o que se quer não deverá ser completada pela sua referência à razão, à totalidade do homem, para que não se converta em tirania do irracional? Não pertence à mútua implicação entre razão e vontade procurar a razão comum a todos os homens, e desse modo a compatibilidade mútua das liberdades? É evidente que na questão da racionalidade da vontade e de sua vinculação com a razão está latente também a questão da verdade.

Então… O que vocês acham? Ilusão?

A visão do Papa foi a mesma que discutimos?

 Abraço,

Cigano

Depois de duas semanas sumido de nossas reuniões e dando sequencia à linha do post do gitano, trago aqui alguns inflamados versos do grande Fernando Pessoa – sobre a morte – como homenagem inicial ao blog. Espero que gostem.

“O que é a vida e o que é a morte
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as cousas que há
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer cousa aqui
Terá de mim o próprio estigma
Da sombra em que eu vivi.”

Eu pensei nesse poemas, li muitas vezes, e como pensava numa coisa suficientmente não idiota pra escrever aqui, acabei levando mais tempo do que devia. Primeiro eu precisei saber o que é estigma. Descobri que estigmas são um dos cinco sinais que aparecem no corpo (geralmente de santos) nos mesmos lugares que as chagas de Jesus, nos pés, punhos e tórax. Mas lembrei-me que estigma também é visto como uma visão rotulada, fortemente ligada a um preconceito, uma idéia forte e pronta.

Isso me foi suficiente para concluir o que eu penso do poema. Primeiramente penso que Pessoa utilizou estigma como marca, como sinal visível, isso é imprescindível para compreender o poema.

Então fica assim: O poeta não se preocupa com o “enigma da morte”, porque o que move o mundo é “a vida e sorte”. Eu digo: na verdade ele se preocupa sim, e muito! Ele faz questão de dizer que o que move o mundo é “a vida e a sorte”, ou seja, nada, ou, o inalcansável, o imperscrutável, o mundo é movido por ele mesmo. Quer dizer que o poeta, seguindo minha idéia, desistiu de descobrir o enigma, e busca agora um significado para a própria existência. Aqui entra o “estigma”, agora não importa o enigma, o que importa é o estigma do que vivi, a marca da minha vida, o que modernamente poderia se falar “a força do meu exemplo”. Mas ao mesmo tempo o poeta se rende: não é o estigma da vida, mas sim “da sombra em que vivi”, ou seja, apesar do sentido pessoal de fazer valer a vida, a sua vida, por melhor que seja, por mais sulcos que deixe, estará envolta nessa “sombra”, na triste “sombra” de não saber a resposta ao enigma. Ou, na minha visão, de não compartilhar a resposta ao enigma. 

Portanto, acho que é ao mesmo tempo um poema de triunfo e de resignação.    

Mas eu fico mesmo é com Philippe Ariès, que dispensa explicação:

“Aquilo que verdadeiramente é mórbido não é falar da morte, mas nada dizer acerca dela, como hoje sucede. Ninguém está tão neurótico como aquele que considera ser neurótico decidir-se a pensar sobre o seu próprio fim.” 

Um abraço a todos!

Eu extraí as referências desse post dum texto que eu tenho do escritor Alcy Gigliotty, nesse link não está inteiro mas vale muito a pena conferir: http://darkemotions.blogs.sapo.pt/arquivo/642493.html

 

 Se vivesse hoje, teria 120 anos o grande poeta.

 Aproveitando o ensejo deste aniversário, gostaria de delinear os objetivos deste nosso grupo à luz deste nobre purtuguechs. Vou expor alguns conceitos que estão no prefácio do “Mensagem”:

“(…) compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes”.

 Erudição: uma soma. O erudito é o cara que sabe milhões de coisas. Ele não precisa consultar a Barsa, consulta a sua memória. E.g., o indivíduo sabe que em 1920 os ingleses dispararam contra os irlandeses num jogo de futebol gaélico num domingo em Dublin. O estádio tinha em torno de 5 mil espectadores. Morreram 12 pessoas, entre eles um garoto de 10 e outro de 11 anos. Em 1972, foram mortos 13 civis desarmados que protestavam contra o domínio do Reino Unido. Os dois episódios são conhecidos como “Bloody Sunday”.

 Cultura: uma síntese. Este conseguiu juntar coisas diferentes num todo harmônico. Este é um dos objetivos do nosso grupo. Ganharmos uma visão de conjunto de Deus, do homem e do mundo. E.g., os ingleses não costumam tratar os irlandeses com muita humanidade, quando há questões políticas em jogo.

 Compreensão: uma vida. Aristóteles fala numa parte do Ética a Nicômaco que a leitura não será útil aos menores de 30 anos (!). Isto significa que a experiência da vida real tem muito a ver com este passo. E.g., posso juntar estes fatos à política da minha universidade, onde vejo um puxar o tapete do outro. Vejo que o ser humano, pela sede de poder, trata as pessoas sem humanidade. Posso lembrar que já defendi “o meu” (tempo, dinheiro, cargo, etc…) por vezes sendo injusto com os outros.

Esta é a minha compreensão do Pessoa.
Gostaria que vocês comentassem e me corrigissem, pois sei muito pouco de poesia e não sei o que ele entendia por “símbolos”.
Abração,
Gitano